As novas utopias. E as velhas também.

“O que nós queremos, de fato, é que as ideias voltem a ser perigosas.”

– 1968, nos muros de Paris.

“O século XX acreditava no progresso como caminho da história. Acreditava-se que depois da 2ª Guerra Mundial haveria um progresso com duas possibilidades: o progresso soviético e o progresso ocidental. Mas era a mesma religião do progresso. As mesmas certezas históricas”.

– Edgar Morin

Hoje, a religião do progresso afundou e o futuro é incerto. Vivemos na incerteza. Quando deveríamos ter mais respostas, encontramos mais perguntas.

A nova utopia: salvar o planeta.

Mas salvar o quê? A humanidade que não cabe no planeta? Aqueles desprovidos de oportunidades, desprovidos até mesmo de água e alimento? Ou então, salvar o planeta Terra que nos fornece tudo que precisamos para sobreviver? Lutamos por séculos, senão milênios, contra a natureza. Agora iremos lutar pela natureza?

Produção e consumo.

Tolstói perguntava: de quanta terra precisa o homem?

A felicidade paradoxal do consumo é o que move a sociedade. Apesar disso, “como há tantas coisas que eu jamais necessitarei!”, diria Sócrates. E o que mais se produz hoje? Lixo.

Acabamos descobrindo que a terra e a humanidade são uma coisa só. A sociedade não é mais o centro. O centro é o planeta. Mas os homens ainda não aceitaram tal realidade.

Os excluídos.

No prólogo do livro Economia Subterrânea, de Hernando de Soto, o escritor Mario Vargas Llosa aponta: “nas condições criadas pela nova economia informacional, uma proporção importante da população mundial está passando de uma posição estrutural de exploração a uma posição estrutural de irrelevância”.

Então, de que adianta defender os trabalhadores quando nem trabalho se tem?

A competição.

“A competição é fator de progresso? O maior progresso da humanidade não é resultado de uma competição, mas de um desejo de compreender. Veja, por exemplo, o caso de Einstein: ele não estava competindo com ninguém, estava sozinho, diante de um problema que ninguém sabia resolver; ele batalhou e resolveu. Ele não fez nada com espírito de competição. Ele não falou que era mais forte ou mais veloz que os outros. Ele fez tudo compartilhando e, por consequência, o verdadeiro progresso da humanidade é feito sem competição.”

– Albert Jacquard

As velhas utopias continuam.

A fome não acabou. A corrupção foi banalizada: estão prendendo os cidadãos e estão deixando os criminosos soltos. Os sem teto e os sem terra continuam lutando por seus direitos. E por aí vai… E sem respostas, a pergunta que fica é se estamos desorientados ou sobrecarregados?


Fotografia de Natalie Collins.

Escrito por Rafael L. Carlesso

Arquiteto, urbanista e pesquisador na área de sociologia urbana e filosofia.
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