Homo individualis

Vida à la carte: escolhas desorientadas. Hedonismo: a diversão nunca para. Prazer, muito prazer para mim! Os modelos de existência se multiplicaram e um novo sistema de valores que coloca o indivíduo liberto e igualitário como valor central da nossa cultura emergiu. Os princípios da liberdade individual e da igualdade de direitos perante a lei pode não ter sido posto em prática integralmente, mas estabelece o indivíduo como ‘referencial último da ordem democrática¹’, enquanto a Declaração Universal dos Direitos Humanos é sua base de sustentação primordial.

Toda generalização é um exagero, inclusive esta. Por isso, é necessário esclarecer que os fenômenos da individualização se desenvolvem de maneira desigual em todo o mundo. Mesmo assim elas ocorrem. É o caso de países como a Tunísia, Egito, Argélia e por aí vai. É lógico que há muito mais em jogo naquelas terras, mas as disputas que culminaram nas guerras e conflitos do Oriente Médio evidenciam essa mudança de comportamento e de princípios que orientam as sociedades modernas.

Nietzsche, que viveu entre 1844 e 1900, já previa essa revolução individualista. O filósofo diz que “uma centena de profundas solidões juntas forma a cidade de Veneza. Este é seu encanto. Um modelo para os homens do futuro”.

O culto ao corpo social de enquadramentos coletivos – tradições familiares, ensinamentos religiosos, ideologias políticas, etc. – se desmancha no ar e dá lugar ao culto com o próprio corpo, comprovados pela oferta e procura de centros de cirurgia estética, academias, salões de beleza, etc., e ainda leva a uma ‘autonomização da existência individual cada vez mais voltada para si mesma²’.

Não faço parte do mundo. O mundo é que faz parte de mim. O desinteresse crescente na política e em outros setores da vida social é uma realidade pujante. A queda das ideologias agrega valor ao descrédito que ocorre atualmente com os representantes políticos e seus partidos.

Por consequência, a união que faz a força parece ser a última alternativa dos políticos no Congresso Nacional. Há quem diga que não existe mais oposição, que há mais monólogo e menos diálogo.

A perda da bússola das crenças e identidades políticas parece coincidir com este movimento neoindividualista, pois os eleitores tendem a se identificar com parte das ideias de cada partido, conformando uma posição própria e destinando seu voto ao indivíduo político que expressa suas vontades, e não ao conjunto partidário.

Em meio a tudo isso, a pergunta que fica é se há resistência ou adaptação dos partidos. Encontramos um caminho ou abrimos um? Os partidos políticos estão se partindo? Parece que só o tempo pode nos responder.


Fotografia de Ryoji Iwata.

Escrito por Rafael L. Carlesso

Arquiteto, urbanista e pesquisador na área de sociologia urbana e filosofia.
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