A era da cultura-mundo

A origem do nome. Hipercapitalismo, turbocapitalismo, capitalismo cultural. Muitos termos que, em essência, tentam esclarecer um só fenômeno: “um mundo que se torna cultura, uma cultura que se torna mundo: uma cultura-mundo”, conforme anuncia o filósofo Gilles Lipovetsky em seu livro A Cultura-Mundo: Resposta a Uma Sociedade Desorientada.

As janelas foram abertas! O homem se transformou em um ser babilônico. “Nada do que é humano me é estranho”, diria Marco Aurélio. O crescimento exponencial das mídias, do audiovisual e do webmundo nos transporta para a era da ampliação do universo da comunicação, da informação, da midiatização.

“Nada do que é humano me é estranho”, diria Marco Aurélio.

Falar da cultura, do mundo, senão da cultura-mundo, é essencial para entender o impacto desse fenômeno em nossas vidas. Qual é a cultura que caracteriza o mundo que habitamos? Qual é a relação com os demais setores da vida contemporânea – individualismo, capitalismo globalizado, internet, consumismo, imediatismo?

A era da cultura-mundo. “As primeiras formulações de ideia de cultura-mundo vêm de longe. Através da noção de cosmopolitismo, ela aparece como um dos mais antigos valores constitutivos da tradição intelectual e religiosa do Ocidente. Nascida na Grécia dos filósofos (ceticismo, cinismo e, sobretudo, estoicismo), ela se exprimiu no coração do cristianismo antes de tomar um novo relevo na Europa das Luzes, exaltando a unidade do gênero humano, os valores da liberdade e da tolerância, de progresso e de democracia. Dante já escrevia: ‘Minha pátria é o mundo em geral’; fazendo eco a isso, no fim do século XVIII Schiller chamará o sentimento da pátria de um ‘instinto artificial’, declarando: ‘Escrevo na qualidade de cidadão do mundo. Bem cedo, perdi minha pátria para trocá-la pelo gênero humano’. Uma cultura-mundo que se identifica com um ideal ético e liberal, com um humanismo universal que se recusa a ver nos outros povos figuras inferiores e considera o amor pela humanidade superior ao amor pela cidade.

“Minha pátria é o mundo em geral.” Dante Alighieri

Comparado a essas épocas, nosso tempo é testemunha do advento de uma segunda era da cultura-mundo, que, desta vez, se desenha sob os traços de um universal concreto e social. Não mais o ideal do ‘cidadão do mundo’, mas o mundo sem fronteiras dos capitais e das multinacionais, do ciberespaço e do consumismo. Não se limitando mais à esfera do ideal, ela remete à realidade planetária hipermoderna em que, pela primeira vez, a economia mundial se ordena segundo um modelo único de normas, valores e objetivos – o éthos e o sistema tecnocapitalista -, e em que a cultura se impõe como um mundo econômico de pleno direito. Cultura-mundo significa o fim da heterogeneidade tradicional da esfera cultural e a universalização da cultura mercantil, apoderando-se das esferas da vida social, dos modos de existência, da quase totalidade das atividades humanas. Com a cultura-mundo, dissemina-se em todo o globo a cultura da tecnociência, do mercado, do indivíduo, das mídias, do consumo; e, com ela, uma infinidade de novos problemas que põem em jogo questões não só globais (ecologia, imigração, crise econômica, miséria do Terceiro Mundo, terrorismo…), mas também existenciais (identidade, crenças, crise dos sentidos, distúrbios de personalidade…). A cultura globalitária não é apenas um fato; é, ao mesmo tempo, um questionamento tão intenso quanto inquieto de si mesmo.”


Fotografia de Arturo Castaneyra.

Escrito por Rafael L. Carlesso

Arquiteto, urbanista e pesquisador na área de sociologia urbana e filosofia.
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